Quem disse que esse país não tem memória? Neste sábado, às 16h, os familiares das vítimas dos dois maiores acidentes aéreos, ocorridos no Brasil em setembro de 2006 e julho de 2007, se unem em protestos nos aeroportos de Porto Alegre (Salgado Filho), São Paulo (Congonhas) e em Manaus (Eduardo Gomes), com apoio da FIVAA – Federação Internacional das Vítimas de Acidentes Aéreos. Os protestos vão ocorrer nos aeroportos de Congonhas (São Paulo), Salgado Filho (Porto Alegre) e Eduardo Gomes (Manaus). Bom seria que nesse horário a gente parasse o que estivesse fazendo e falasse com quem pedisse a quem estivesse ao nosso lado um minuto de silêncio que fosse, em memória das vítimas de mais essa tragédia aérea.
Como este blog acompanhou esse acidente, fazemos questão de informar sobre a manifestação que marca os 18 meses (um ano e meio) da tragédia do vôo GOL 1907 e será o momento para que os familiares das vítimas relembrem à comunidade o descaso das autoridades e a falta de informações sobre as investigações dos dois acidentes aéreos.
Representantes da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do vôo 1907 e da Associação de Familiares das Vítimas do vôo TAM JJ3054 farão a leitura de uma carta aberta alertando à comunidade sobre os dois acidentes e os problemas que vêem sendo enfrentados pelas mais de 350 famílias. Outro ponto que será destacado é a falta de punição dos envolvidos nos acidentes e as dificuldades de acesso às investigações oficiais, promovidas pela Aeronáutica.
A união dos dois movimentos é um bom exemplo para os movimentos sociais e de reivindicação do país.
Leia a íntegra da Carta aberta da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo 1907, que será divulgada neste sábado:
"Brasil, 29 de março de 2008
A Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo 1907 vem através deste movimento relembrar a tragédia acontecida há 18 meses atrás, onde 154 pessoas tomaram um vôo e nunca mais retornaram aos seus lares. Tristemente vimos a história se repetir e com um número ainda maior. Há menos de 1 ano da tragédia com o avião da Gol vôo 1907 vimos outras 199 vítimas na tragédia da TAM vôo JJ3054 perderem suas vidas, e sofremos novamente a mesma dor dos primeiros momentos. Foi difícil acreditar que em tão pouco tempo estávamos vivendo outra tragédia da mesma proporção, agora somando 353 vítimas em apenas dois acidentes.
Afinal, esperávamos que a lição tivesse servido, para que ninguém mais passasse por isso. Estávamos enganados, o poder, a ganância, o dinheiro, o lucro falam mais alto, quantos interesses estão à frente da segurança neste País... Estamos vivenciando isso a cada dia, toda vez que lemos nos jornais as noticias de escândalo com o dinheiro publico, ou ainda os recordes de faturamento e lucro das empresas aéreas, das seguradoras e por aí vai. E as notícias sobre os investimentos na segurança aérea onde estão? Não aqueles pequenos investimentos, só para dizer que algo esta sendo feito, mas os investimentos de verdade que trarão alguma mudança no quadro de segurança do nosso País. Onde estão as mudanças de leis para que os diretores das agências reguladoras respondam criminalmente pelos seus atos falhos, ao invés de simplesmente pedir demissão e tudo ficar por isso mesmo...
A AFAV vôo 1907 foi criada para acompanhar o desenrolar das investigações e cobrar das autoridades respostas sobre a causa do acidente com o vôo GOL1907, que vitimou nossos familiares. Porém, nestes mais de 550 dias que já se passaram, tivemos a frustrante experiência de achar que poderíamos contar com nossos governantes e políticos que têm seus cargos para trabalhar para nós e por nós. O resultado que trazemos ao conhecimento publico não poderia ser pior...
Nosso presidente, Luiz Ignácio Lula da Silva, eleito pelo povo para ser seu representante, nunca se dignou a nos receber, ou dar uma palavra de apoio sequer, nenhum gesto efetivo de sua parte para amenizar nosso sofrimento, pelo contrário, quando enviamos em nosso desespero um pedido de audiência, esperamos por um mês para receber um não. Temos direito a informações claras, precisas e apoio dos órgãos submetidos ao seu comando.
Ao invés disso recebemos apenas a falta de comprometimento dos órgãos que deveriam ser os primeiros a nos apoiar. No dia 31 de maio fomos recebidos pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro, devido a um abaixo assinado feito, onde movimentamos o País todo, para forçar esse encontro. Com ele deixamos várias perguntas, solicitações e um compromisso dele em nos ajudar. Até hoje, nenhuma resposta. Assim também vem ocorrendo com o Ministério da Defesa Civil que nos recebeu em 17 de fevereiro de 2008, prometeu-nos respostas ao documento entregue com 14 pontos, e mais uma vez nada nos é informado. Apesar de todas as promessas feitas, onde depositamos grande esperanças, a frustração nos consome mais uma vez. Alem destes órgãos, recorrer durante meses em Brasília às diversas autoridades e nenhuma delas, seja Direitos Humanos, secretarias especiais ou promotorias, aceitarem nos ajudar.
O esforço, luta e determinação das famílias em conseguir respostas sobre o acidente que vitimou nossos maridos, filhos, esposas, mães, pais, avós, primos, sobrinhos, amigos e tantos outros laços familiares vem sendo grande junto à Aeronáutica. São meses e meses de angústias, de palavras ásperas e de ofensas. A falta de colaboração do CENIPA em reconhecer a associação, a falta de respostas nas primeiras reuniões que aconteceram com os familiares e que não mais acontecem com a desculpa de que não existem fatos novos...
Não podemos acreditar que 18 meses de trabalho do CENIPA não resultou em nenhuma informação nova que contribuísse para que pudéssemos entender o que de fato aconteceu naquele fatídico dia. Sem contar o fato de que denunciamos as pilhagens, as imagens dos corpos em resgate que foram colocadas no youtube, e nunca houve uma resposta se quer destas denúncias, até hoje não sabemos se há uma investigação sobre isso. Mas vamos continuar incansavelmente cobrando respostas.
Não podemos nos esquecemos também, os longos meses que tivemos que suportar, com dor e sofrimento, as palavras da sra. Denise Abreu, ex diretora da ANAC, que além de nos causar tamanho desrespeito, também foi quem liberou a pista de São Paulo sem as devidas finalizações, o que resultou outro acidente. Esta mulher tem que responder pela responsabilidade que lhe fora atribuída seja ela prática ou moral.
Nesses dezoito meses nós não esquecemos de várias coisas. E serão precisos muitos anos para diminuir a dor de perder nossos entes queridos, em um acidente em que as autoridades não se esforçam para esclarecer. São dezoito meses que ouvimos e falamos sobre a irresponsabilidade das autoridades em liberar os pilotos norte-americanos, que nós, familiares, entendemos como principais responsáveis pela tragédia, antes do encerramento das investigações. Agora, para nossa surpresa, estes criminosos foram liberados para depor nos Estados Unidos. Que País é este aonde estrangeiros entram matam e respondem por crime em suas casas para ficar próximos dos entes queridos???
Sentimo-nos abandonados a nossa sorte, sem ninguém que efetivamente leve isso a sério. Até a companhia aérea, que mesmo tendo responsabilidade objetiva, por uma questão moral, que deveria dar todo o apoio e suporte aos familiares desta tragédia, mas se limitou a dar um apoio medico por um ano e um psicológico por dois, para quem comprove necessidade... Senhor Constantino, presidente da GOL, o senhor também é responsável pelas famílias das vítimas e não vamos deixar, em um só momento, de lembrá-lo disso. Trazemos a todos a real situação das famílias, que não pediram para passar por isso, e além da dor da perda ainda tem que passar pela humilhação de implorar para que uma companhia aérea deste porte ceda algumas passagens para que os familiares possam acompanhar os acontecimentos relativos a tragédia em Brasília, mas em todas as nossas tentativa a resposta foi a mesma, Não.
Nossos agradecimentos até o momento se limitam aos valentes soldados que encararam as dificuldades da selva, em busca de sobreviventes. Os agradecemos, também, por nos ajudar e trazer os corpos até nós, para, pelo menos, terem um enterro digno. Fiquem certos de que não esquecemos do trabalho de vocês e que sempre lembraremos disso, de soldados que agiram com honra, por nós, cidadãos. Nos lembramos também dos soldados do Corpo de Bombeiros, que amplamente nos ajudaram, desde o resgate, até os dias atuais com palavras de apoio, encorajamento e fé. Aos funcionários e administradores da fazenda Jarinã, aos índios Caiapós que tanto fizeram para nos ajudar, por todas as homenagens de respeito e solidariedade demonstrada.
Lembramos também de todos os profissionais responsáveis da imprensa, que nos apoiaram em nossa luta em todos os momentos. É por isso que nestes manifestos que estão sendo feitos nas mais diversas partes deste país, nós hoje reforçamos a lembrança de cada uma das vítimas desses acidentes que, até hoje, não tiveram respostas. Vamos continuar lutando, a cada dia, por uma ação efetiva das autoridades. E você cidadão que vai ter uma viagem mais segura do que no trânsito rodoviário, esteja certo que isso só vai acontecer se nos unirmos, lutarmos e cobrarmos juntos por mais segurança. Lembre-se de quem você está deixando para trás e quer rever em breve, ao entrar em um avião.
Associação de Familiares e Amigos das Vitimas do vôo 1907."
Nenhum comentário:
Postar um comentário