David Neeleman diz que não repetirá no Brasil os erros dos EUA
(John Wilen, Associated Press )
Quando David Neeleman deixou o cargo de diretor-executivo da JetBlue Airways há um ano, jurou que jamais abriria outra companhia aérea.
“Isso mostra o quanto a idéia de operar no Brasil é atraente”, disse o fundador da JetBlue a respeito do seu novo empreendimento, uma companhia aérea - é claro - que agradará aos brasileiros no preço e no serviço.
Aos 48 anos, esse pai de nove filhos, envolvido na criação de três empresas de aviação ao norte do equador, diz que não vai abrir outra companhia no hemisfério norte tão cedo.
“Se alguém me dissesse, aqui estão US$ 400 milhões para abrir uma empresa nos EUA, eu responderia, ‘Não pode ser feito”, declarou Neeleman durante almoço em Nova York na semana passada.
O petróleo custando mais de U$120,00 por barril, uma economia em desaceleração e a feroz competição doméstica estão espremendo as companhias. A maioria das empresas americanas relataram agudas perdas no primeiro trimestre. Duas delas - Delta Air Lines e Northwest Airlines - estão se associando para tentar reduzir os custos, e diz-se que muitas outras estão explorando a idéia de juntar forças.
Analistas dizem que a solução para esses problemas, excluída uma forte redução no preço do petróleo, é a redução da capacidade - o número de aviões e assentos à procura de passageiros.
É por isso que as empresas precisam se unir, dizem analistas; precisam eliminar rotas e centros de conexão.
Mas mesmo a Delta e a Northwest relutam em identificar cortes potenciais, dizendo que por enquanto manterão suas rotas e conexões.
“Somos todos concorrentes, e ninguém quer ser o primeiro a recuar”, disse. “Quem o fizer verá o próximo tomar-lhe o mercado. É como se estivéssemos todos numa marcha em direção à morte, seguindo caminho e perdendo dinheiro.” Mas o Brasil é diferente, disse.
Duas empresas, TAM e Gol, controlam mais de 90% do mercado, e os preços são cerca de 50% mais altos do que nos EUA, disse. Não há serviço ferroviário de passageiros; quem não pode pagar por um vôo viaja as longas distâncias de ônibus.
A maioria dos vôos brasileiros requer dos passageiros que mudem de avião nos centros de conexão e, por isso, a empresa de Neeleman pretende atrair os passageiros de maior poder aquisitivo oferecendo um maior número de vôos sem escalas. No extremo oposto, a Azul vai oferecer passagens pouco mais caras do que as de ônibus, na esperança de não apenas tomar uma fatia de mercado das empresas brasileiras mas também atrair aqueles que normalmente não viajam de avião.
“Achamos que o mercado deveria ser três ou quatro vezes maior”, disse Neeleman.
Mas penetrar no mercado aéreo brasileiro pode ser mais difícil do que parece.
“O mercado brasileiro não é dos mais fáceis”, disse Mike Boyd, presidente da consultoria Boyd Group. “O país é um cemitério de companhias aéreas. Dito isso, se alguém for capaz de prosperar lá, esse alguém é Neeleman.” Boyd acha que a experiência de Neeleman priorizando os fregueses irá levá-lo longe no Brasil, onde Boyd destaca a existência de problemas de congestionamentos e atrasos similares aos dos EUA. Neeleman pretende começar as atividades com três aviões, acrescentando um avião por mês até obter um total de 76.
De início, a Azul realizará vôos domésticos, mas pode adicionar rotas internacionais. Será de capital privado, com a intenção de algum dia abrir-se ao público. Neeleman manterá o controle sobre os votos.
“Não sofrerei o mesmo problema (que tive) na JetBlue”, disse Neeleman.
“Não serei derrotado, nem surpreendido como da última vez.” E foi uma grande surpresa quando o Conselho de Administração da JetBlue pediu-lhe que abandonasse o cargo de diretor-executivo e entregasse a gestão ao presidente Dave Barger apenas meses após o famoso 14 de fevereiro de 2007, quando uma tempestade de gelo provocou o cancelamento de milhares de vôos no nordeste americano.
Neeleman desculpou-se exaustivamente por causa dos equívocos e adotou medidas imediatas para corrigir os problemas operacionais da empresa aérea. Por exemplo, contratou o ex-executivo da American Airlines Russ Chew como diretor da companhia.
Mas as atitudes de Neeleman para consertar a JetBlue não evitaram que o conselho administrativo decidisse que o problema era ele.
“Foi horrível, inesperado, realmente me pegou desavisado”, disse Neeleman sobre a decisão do Conselho. Mas acrescenta: “Tenho que assumir a responsabilidade pelo que aconteceu... Estava me comunicando com todos, com exceção do Conselho. Então o Conselho acabou formando sua própria opinião sobre como as coisas deveriam ser feitas e o que deveria acontecer para a empresa avançar.” Neeleman permanece como presidente do Conselho, mas não tentará a reeleição.
Neeleman afirma há muito que tem perfil mais visionário, diferente de um pragmático operador de linhas aéreas. No momento ele é o diretor executivo da Azul, mas está entrevistando executivos brasileiros procurando alguém para ocupar o cargo de executivo chefe e controlar as operações diárias da empresa. Neeleman disse também que aprendeu muito sobre a interação com o conselho administrativo.
Fonte: JB
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