2.3.11

Brasil faz aéreas decolarem

Companhias como TAP, Delta Airlines e Air France voltam-se ao país para fugir de prejuízos nos Estados Unidos e na Europa

A soma de ingredientes como o surgimento de uma nova classe média no Brasil e o fraco desempenho econômico dos chamados países desenvolvidos colocou o país de vez na posição de protagonista na América Latina no quesito oportunidade de negócios. Não à toa, os olhos das grandes companhias aéreas internacionais estão voltados para cá. Enquanto nos mercados dos Estados Unidos e da Europa, as empresas já não têm mais como crescer e muitas registram prejuízo, aqui a demanda reprimida há anos - o mercado de aviação nacional cresce 24% ao ano, o dobro do verificado na China - agora leva milhões de consumidores com dinheiro no bolso a buscarem o exterior como roteiro de viagem, muitos pela primeira vez.

O exemplo mais emblemático é o da portuguesa TAP. Os brasileiros foram os responsáveis pelo salto no faturamento da companhia, de 1 bilhão de euros para 2,5 bilhões de euros, ao longo dos últimos 10 anos. Hoje, Lisboa funciona como um grande hub (centro de distribuição) tanto para passageiros nacionais que vão para a Europa como para europeus que vêm para o Brasil. Depois da Europa, o país é o lugar com maior número de negócios da companhia aérea. Os números não mentem - os europeus respondem por 37% dos resultados da TAP; os brasileiros, por 35%; e os africanos, por 16%.

A TAP é a companhia que mais voa entre Brasil e Europa, com rotas para nove cidades brasileiras e, a partir de 12 de junho, Porto Alegre (RS) será a décima. Dentro da receita total da empresa, 35% das passagens foram vendidas no Brasil e 7%, em Portugal. O sucesso no mercado brasileiro é um dos principais atrativos para os investidores interessados na privatização da companhia, processo aguardado para os próximos meses. Recentemente, chegaram a circular rumores de que a Gol estaria interessada em comprar a TAP. Mas a empresa brasileira não confirma a informação.

Fronteiras

A americana Delta Airlines também está determinada a conquistar o mercado nacional. "A Delta, hoje, voa para 54 cidades na América Latina e Caribe, mas, sem dúvida, o Brasil é o mercado mais importante na região", diz Nicolas Ferri, vice-presidente para a América Latina e Caribe da Delta. Atualmente, a empresa oferece 31 voos semanais sem escala entre os Estados Unidos e o Brasil, incluindo serviços entre Atlanta e São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília; entre Nova York e São Paulo; e entre Detroit e São Paulo.

No ano passado, Delta e Gol anunciaram um acordo entre os programas de milhagem SkyMiles e Smiles, o que permitiu aos clientes o acúmulo e o resgate de milhas em ambos os programas. O simples fato de a aérea americana ter criado, neste ano, o posto de vice-presidente da América Latina evidencia a importância da região no cenário internacional. Trata-se de um cargo relevante cujo titular se reporta diretamente ao presidente da companhia. "O motivo é que a Delta reconhece que o crescimento do setor no mundo ocorrerá não necessariamente nos EUA, mas além das nossas fronteiras. Por isso, queremos começar 2011 com uma nova abordagem aos brasileiros", revela Ferri.

Prova dessa preocupação são os planos da empresa para descobrir o gosto dos clientes brasileiros. "Vamos perguntar a eles coisas básicas, como o que é importante, como a Delta satisfaz essas demandas e se as outras companhias o fazem. Queremos saber, por exemplo, por qual canal os brasileiros preferem comprar passagens, o que esperam do avião, se é importante ter uma revista em português ou que a tripulação fale português e até que tipo de comida querem", adianta o vice-presidente da companhia.

Atrativo

Assim como a TAP transformou Lisboa em um hub para a Europa, a Delta quer aproveitar as conexões que a empresa americana oferece para outros países a partir de Atlanta e Nova York para transportar os brasileiros aos demais destinos do mundo. "Queremos que a Delta seja vista como uma forma de acesso, não só aos EUA mas ao mundo", revela Ferri. Para se ter uma ideia, dos 66 países para os quais a Delta oferece rotas, o Brasil é o quarto colocado em volume de vendas, atrás de Japão, Alemanha e Reino Unido.

No ano passado, as vendas da empresa para brasileiros deram um salto de 44% na comparação com 2009. Ferri acredita que esse crescimento não se repetirá, contudo, em 2011. Na sua visão, 2010 foi o ano do crescimento e 2011 será o ano da consolidação no mercado brasileiro. Das passagens dos voos da Delta que ligam o Brasil aos EUA, 60% são vendidas aqui e 40%, nos EUA. Os fatores que tornam o Brasil um dos mercados mais atrativos no cenário internacional envolvem, além do bom momento econômico, a própria geografia do país com dimensões continentais e os fortes laços de amizade com os principais mercados do mundo - sem contar o gosto dos brasileiros pelo turismo.

A Air France é outra companhia que sonha em conquistar a preferência dos brasileiros. Por ora, o Brasil responde por apenas 1,5% do faturamento do grupo - que inclui a holandesa KLM -, mas o objetivo é elevar esse percentual diante do aquecimento econômico nacional. O grupo oferece 14 saídas por semana de São Paulo para Paris e mais 14 semanais do Rio para Paris, enquanto a KLM oferece uma saída diária de São Paulo para Amsterdã, totalizando 35 voos por semana entre Brasil e Europa.

Assim como a Delta, a Air France atua em parceria com a Gol para o compartilhamento de voos. Dessa forma, os passageiros têm acesso a voos operados pela brasileira que partem dos aeroportos internacionais do Rio e de São Paulo para seis destinos domésticos no Brasil: Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Salvador e Vitória. Ao Correio, a Air France diz que considera o Brasil como o mercado mais importante da América Latina e um dos mais importantes no mundo. O motivo principal, no entender da empresa, foi a estabilidade econômica conquistada nos últimos anos: "Isso permite que cada vez mais brasileiros viajem para o exterior de forma a promover o país, além de possibilitar que as empresas nacionais se estabeleçam e cresçam no mercado estrangeiro".

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